Dejeto das VACAS: como transformar um passivo em recurso na propriedade

Com planejamento, o dejeto bovino pode deixar de ser apenas um problema de armazenamento e se transformar em fertilizante, composto orgânico ou fonte de energia.

A produção de leite também gera diariamente uma quantidade significativa de dejetos. Quanto maior o confinamento e o número de animais, maior é a necessidade de coletar, armazenar, tratar e definir um destino adequado para esse material.

Quando não existe planejamento, os dejetos podem provocar mau cheiro, formação de lama, dificuldade de limpeza, aumento de insetos e risco de contaminação do solo e da água.

Entretanto, o dejeto bovino também contém matéria orgânica e nutrientes que podem ser aproveitados dentro da própria propriedade. Com a estrutura correta, ele pode ser transformado em fertilizante orgânico, composto, biogás ou em frações mais fáceis de transportar e utilizar.

O primeiro passo é deixar de enxergar o dejeto somente como algo que precisa ser descartado e passar a tratá-lo como parte do sistema produtivo.

O que é considerado dejeto bovino?

O material produzido em uma instalação leiteira não é composto somente por fezes.

O sistema de manejo pode receber:

  • Fezes;
  • Urina;
  • Água utilizada na limpeza;
  • Restos de alimento;
  • Material de cama;
  • Água dos bebedouros;
  • Água da chuva;
  • Solo e outros materiais carregados durante a limpeza.

A quantidade e a consistência do dejeto dependem do sistema de criação, do método de limpeza, do tipo de piso e da quantidade de água adicionada.

Quanto maior a entrada desnecessária de água, maior será o volume que precisará ser bombeado, armazenado, tratado e transportado.

Quando o dejeto se transforma em problema?

O dejeto bovino se torna um passivo quando sua geração é maior do que a capacidade da propriedade de coletar, armazenar, tratar ou utilizar o material.

Os principais problemas aparecem quando existem:

  • Estruturas de armazenamento pequenas;
  • Entrada de água da chuva no sistema;
  • Vazamentos;
  • Falta de manutenção;
  • Aplicação excessiva no solo;
  • Proximidade inadequada de cursos d’água;
  • Ausência de áreas agrícolas suficientes;
  • Equipamentos mal dimensionados;
  • Mistura desnecessária de materiais;
  • Falta de planejamento para períodos chuvosos.

Os dejetos bovinos contêm nitrogênio, fósforo, potássio e matéria orgânica. Esses componentes podem ser úteis para as plantas, mas o excesso ou o descarte inadequado pode provocar perdas de nutrientes e contaminação ambiental.

Uma pesquisa publicada pela Embrapa destaca que os dejetos da bovinocultura leiteira apresentam quantidades significativas de nitrogênio e fósforo, exigindo cuidado para evitar o transporte desses nutrientes até rios, córregos e reservatórios. Consulte o estudo publicado pela Embrapa.

O manejo precisa funcionar como um sistema

Não existe uma solução única para todas as propriedades. O sistema deve ser escolhido de acordo com a quantidade de animais, o tipo de instalação e o destino desejado para o material.

O fluxo básico envolve:

  1. Coleta;
  2. Transporte;
  3. Separação, quando utilizada;
  4. Armazenamento;
  5. Tratamento;
  6. Aproveitamento ou destinação.

A Embrapa apresenta diferentes alternativas, incluindo o manejo na forma sólida, líquida, semissólida ou em sistemas com lagoas.

A escolha deve começar pelo destino final. Não faz sentido instalar um equipamento de separação ou um biodigestor sem definir previamente como as frações resultantes serão utilizadas.

Reduzir a entrada de água é o primeiro ganho

Antes de investir em equipamentos maiores, a propriedade deve verificar quanta água limpa está entrando no sistema.

Água da chuva, vazamentos em bebedouros e uso excessivo durante a lavagem aumentam o volume dos dejetos sem aumentar sua quantidade de nutrientes.

Algumas medidas importantes são:

  • Instalar calhas;
  • Conduzir a água da chuva para fora do sistema;
  • Corrigir vazamentos rapidamente;
  • Regular boias dos bebedouros;
  • Utilizar métodos de limpeza eficientes;
  • Evitar lavar áreas que poderiam ser raspadas;
  • Manter água limpa e água contaminada em redes separadas;
  • Inspecionar tubulações e registros.

Reduzir a diluição diminui o volume necessário para armazenamento e pode reduzir o tempo de funcionamento de bombas e equipamentos.

Separação entre as frações sólida e líquida

A separação sólido-líquido divide o dejeto em duas frações com características diferentes.

A fração sólida concentra materiais de maior tamanho e apresenta menor quantidade de água. Isso facilita o transporte, o empilhamento e determinados processos de compostagem.

A fração líquida continua contendo matéria orgânica e nutrientes, mas pode ser movimentada com mais facilidade por bombas e tubulações.

Entre os possíveis benefícios estão:

  • Redução da carga de sólidos na fração líquida;
  • Menor risco de entupimento de tubulações;
  • Facilidade de bombeamento;
  • Melhor organização do armazenamento;
  • Transporte mais simples da fração sólida;
  • Possibilidade de tratar cada fração separadamente;
  • Preparação do material para outros processos.

O separador não faz todo o tratamento sozinho

É importante entender que separar não significa eliminar os dejetos.

Depois do processo, continuam existindo duas frações que precisam de armazenamento e destinação. A separação também não garante que o material esteja sanitizado ou pronto para qualquer tipo de utilização.

O desempenho depende de fatores como:

  • Teor de sólidos;
  • Vazão de entrada;
  • Tipo de separador;
  • Regulagem;
  • Homogeneidade do material;
  • Presença de fibras;
  • Quantidade de areia;
  • Manutenção;
  • Destino desejado para cada fração.

Por isso, o equipamento precisa ser selecionado com base nas características reais da propriedade.

Qual é a função de uma prensa de dejetos?

A prensa é um tipo de separador mecânico. Ela recebe o material e utiliza pressão, peneira ou outro mecanismo para retirar parte do líquido da fração sólida.

O resultado pode facilitar:

  • Armazenamento dos sólidos;
  • Carregamento;
  • Transporte;
  • Compostagem;
  • Distribuição na área agrícola;
  • Tratamento posterior da parte líquida.

Antes do dimensionamento, é necessário conhecer a vazão que chegará ao equipamento, o teor de sólidos, as horas disponíveis para funcionamento e o volume diário gerado.

Escolher somente pela capacidade máxima anunciada pode resultar em desempenho diferente do esperado, principalmente quando o dejeto real apresenta características diferentes do material utilizado como referência pelo fabricante.

Compostagem da fração sólida

A compostagem é um processo biológico controlado que transforma materiais orgânicos em um composto mais estável.

Para funcionar corretamente, o processo precisa de:

  • Matéria orgânica;
  • Relação adequada entre carbono e nitrogênio;
  • Oxigênio;
  • Umidade;
  • Temperatura;
  • Mistura;
  • Tempo.

A fração sólida pode ser combinada com materiais ricos em carbono, conforme a necessidade do processo.

Entre as possibilidades estão:

  • Serragem;
  • Maravalha;
  • Palhas;
  • Resíduos vegetais;
  • Outros materiais permitidos e tecnicamente adequados.

Uma pilha de esterco abandonada não deve ser automaticamente considerada compostagem. O processo precisa ser acompanhado, revolvido quando necessário e protegido contra entrada excessiva de chuva e formação de chorume.

O composto final pode contribuir com matéria orgânica e nutrientes para o solo. Entretanto, sua utilização precisa seguir análise e recomendação agronômica.

Biodigestão e produção de biogás

Outra alternativa é a biodigestão anaeróbica. Nesse processo, microrganismos decompõem parte da matéria orgânica em um ambiente sem oxigênio.

O processo gera:

  • Biogás;
  • Digestato ou biofertilizante.

O biogás pode ser utilizado como fonte de energia térmica e, dependendo da escala e do sistema instalado, para geração de energia elétrica.

A Embrapa informa que resíduos vegetais e dejetos de animais, incluindo bovinos leiteiros, podem ser tratados em biodigestores para produção de biogás e biofertilizante.

A viabilidade depende de fatores como:

  • Quantidade de material coletado;
  • Regularidade da alimentação do biodigestor;
  • Concentração de sólidos;
  • Temperatura;
  • Demanda de energia da propriedade;
  • Investimento;
  • Manutenção;
  • Disponibilidade de mão de obra;
  • Destino do biofertilizante;
  • Licenciamento e requisitos técnicos.

O biodigestor não deve ser escolhido somente porque a propriedade possui animais. É necessário verificar se existe volume coletável suficiente e uso econômico para a energia gerada.

O digestato ainda precisa ser manejado

A biodigestão transforma parte da matéria orgânica, mas não elimina todos os nutrientes presentes no dejeto.

O material que sai do biodigestor ainda precisa ser:

  • Armazenado adequadamente;
  • Analisado;
  • Transportado;
  • Aplicado em dose compatível com a cultura;
  • Mantido longe de áreas de risco;
  • Incluído no planejamento nutricional da propriedade.

O biofertilizante é um subproduto da digestão anaeróbica e pode apresentar potencial agronômico. Porém, sua composição varia conforme os animais, a alimentação, a água adicionada, o sistema de produção e o funcionamento do biodigestor.

Uso agronômico dos dejetos

O uso como fertilizante pode devolver nutrientes às áreas utilizadas para produção de milho, pastagens e outras culturas da propriedade.

Para isso, são necessárias pelo menos três informações:

  1. Análise do solo;
  2. Análise do dejeto ou biofertilizante;
  3. Necessidade nutricional da cultura.

A quantidade aplicada deve ser calculada com base na composição do material e na capacidade da cultura de utilizar os nutrientes.

A dose não deve ser definida somente pelo volume disponível na lagoa. Aplicar tudo em uma área pequena apenas para esvaziar o armazenamento pode provocar acúmulo de nutrientes, perdas por escoamento e desequilíbrios no solo.

A Embrapa destaca que a dose depende do valor fertilizante do material, da análise do solo e da exigência nutricional da cultura. Veja a referência técnica.

Cuidados durante a aplicação

O planejamento deve evitar condições que favoreçam perdas e contaminação.

É importante:

  • Não aplicar próximo a cursos d’água sem respeitar as exigências ambientais;
  • Evitar solo encharcado;
  • Não aplicar antes de chuvas intensas;
  • Utilizar equipamentos calibrados;
  • Distribuir o material uniformemente;
  • Registrar área, data e volume aplicado;
  • Alternar áreas conforme o planejamento agronômico;
  • Acompanhar os níveis de nutrientes no solo;
  • Respeitar as exigências de licenciamento.

A recomendação deve ser elaborada por profissional habilitado e adaptada às regras ambientais aplicáveis ao município e ao estado.

Dimensionamento do armazenamento

A estrutura de armazenamento precisa comportar o volume gerado até que o material possa ser tratado ou utilizado com segurança.

O cálculo deve considerar:

  • Número de animais;
  • Volume diário de dejetos;
  • Água utilizada na limpeza;
  • Vazamentos;
  • Entrada de chuva;
  • Tempo necessário de armazenamento;
  • Períodos em que a aplicação não é possível;
  • Expansão futura do rebanho;
  • Margem operacional;
  • Acúmulo de sólidos.

Reservatórios dimensionados muito próximos do limite oferecem pouca segurança diante de chuvas, falhas em bombas ou atrasos na aplicação.

O projeto deve prever acesso para inspeção, agitação, bombeamento, limpeza e manutenção.

Comparação das alternativas

AlternativaResultado principalPonto de atenção
Separação sólido-líquidoDuas frações mais fáceis de manejarAs duas ainda precisam de destino
CompostagemComposto orgânico estabilizadoExige controle de umidade, ar e temperatura
BiodigestãoBiogás e digestatoPrecisa de volume, operação e uso para a energia
Aplicação agronômicaReciclagem de nutrientesDepende de análises e cálculo da dose
ArmazenamentoPermite aguardar o momento adequadoDeve ser impermeável e corretamente dimensionado

Essas alternativas não são necessariamente concorrentes. A propriedade pode combinar separação, compostagem, biodigestão, armazenamento e aplicação agrícola.

Como escolher a melhor solução

Antes do investimento, levante as seguintes informações:

  • Quantos animais permanecem confinados?
  • Quanto dejeto é produzido diariamente?
  • Qual é a quantidade de água utilizada?
  • O material apresenta areia ou fibras?
  • Existe área agrícola para aplicação?
  • Qual distância será percorrida?
  • Há demanda de energia na propriedade?
  • Existe mão de obra para operar o sistema?
  • Qual é a capacidade de investimento?
  • O sistema continuará adequado após a expansão?
  • Quais são as exigências ambientais locais?

Essas respostas permitem definir se a prioridade deve ser reduzir a entrada de água, ampliar o armazenamento, instalar um separador, implantar a compostagem ou avaliar um biodigestor.

Erros comuns no manejo dos dejetos

  • Misturar água da chuva com o dejeto;
  • Não medir o volume gerado;
  • Escolher equipamentos sem analisar o material;
  • Construir armazenamento sem margem de segurança;
  • Aplicar dejetos apenas para esvaziar a lagoa;
  • Não analisar o solo;
  • Não analisar o biofertilizante;
  • Desconsiderar fósforo e potássio no cálculo;
  • Instalar um biodigestor sem uso para o biogás;
  • Considerar a separação como tratamento completo;
  • Não realizar manutenção nas bombas;
  • Deixar sólidos acumularem em tubulações;
  • Não registrar as aplicações;
  • Lançar efluentes diretamente no ambiente.

Passo a passo para começar

1. Mapeie a geração

Identifique todos os locais onde o dejeto é produzido e quanta água entra em cada ponto.

2. Calcule o volume

Meça ou estime o volume diário e considere as variações entre períodos secos e chuvosos.

3. Defina o destino

Decida como as frações sólida e líquida poderão ser aproveitadas.

4. Analise o material

Conheça os teores de sólidos e nutrientes antes de dimensionar equipamentos ou recomendar aplicações.

5. Escolha o sistema

Avalie separação, compostagem, biodigestão, armazenamento e aplicação agrícola.

6. Dimensione os equipamentos

Considere vazão, horas de funcionamento, expansão do rebanho e manutenção.

7. Registre e acompanhe

Monitore volumes, intervenções, análises e áreas que receberam o material.

Checklist do manejo de dejetos

  • A geração diária é conhecida?
  • A água da chuva está separada?
  • Vazamentos são corrigidos rapidamente?
  • O armazenamento possui capacidade suficiente?
  • Bombas e tubulações recebem manutenção?
  • O material foi analisado?
  • O solo das áreas de aplicação é monitorado?
  • Existe um plano para a fração sólida?
  • Existe um plano para a fração líquida?
  • A dose é calculada por profissional?
  • As aplicações são registradas?
  • A propriedade atende às exigências ambientais?
  • O sistema considera a expansão futura?

Perguntas frequentes

O dejeto bovino pode ser utilizado como fertilizante?

Sim, desde que sua composição seja conhecida e a dose seja definida com base na análise do solo e na necessidade da cultura.

O separador elimina os dejetos?

Não. Ele divide o material em frações sólida e líquida, facilitando o manejo e possibilitando tratamentos diferentes.

A fração sólida pode ser compostada?

Sim. Porém, a compostagem exige controle de umidade, oxigenação, temperatura, composição e tempo.

Todo confinamento pode instalar um biodigestor?

A instalação é tecnicamente possível em diferentes escalas, mas a viabilidade depende do volume coletado, do investimento, da operação e do aproveitamento do biogás.

O biofertilizante pode ser aplicado diretamente?

Antes da aplicação, deve ser analisado e incluído em um plano agronômico. O tratamento no biodigestor não elimina a necessidade de controlar nutrientes e possíveis riscos ambientais.

Como reduzir o volume produzido?

A principal medida é evitar a entrada desnecessária de água, corrigindo vazamentos, conduzindo a chuva para fora do sistema e melhorando os métodos de limpeza.

Conclusão

O dejeto bovino deixa de ser apenas um problema quando a propriedade conhece sua geração, reduz a entrada de água e define um destino para cada fração.

A separação sólido-líquido pode facilitar o transporte e o tratamento. A compostagem transforma materiais orgânicos em composto. A biodigestão pode gerar biogás e biofertilizante. A aplicação agronômica permite reciclar nutrientes nas lavouras e pastagens.

Porém, nenhuma dessas soluções funciona isoladamente. O sistema precisa conectar coleta, transporte, armazenamento, tratamento, manutenção e utilização final.

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